As Diferentes Correntes do Feminismo no Mundo

cartaz feminista

Artigo escrito por: Cláudia Silva, Socióloga e Técnica de Apoio à Vitima (colaboração)

Como definirias o movimento feminista? Muito provavelmente, em algum momento da tua vida, já te perguntaram se eras feminista ou se conseguias identificar qual o tipo de feminismo mais adequado aos teus ideais. Este tipo de perguntas pode, em algum momento, colocar quem as ouve numa posição reticente, uma vez que o movimento de empoderamento feminino não é homogéneo. Deste modo, ao longo da história feminista, é possível constatarmos numerosas correntes que, apesar de se basearem em valores similares, procuram atender a necessidades diferenciadas de diferentes mulheres ao redor do mundo.

(o texto que se segue é longo, mas está dividido por títulos para facilitar a tua experiência de leitura)

O surgimento das primeiras correntes do feminismo

Com presença assídua nas nossas sociedades, as desigualdades de género não são uma novidade. Figuras históricas como, por exemplo, Joana D’Arc já nos tinham mostrado que a emergência da era feminista estava a aproximar-se. No entanto, o movimento só foi mais tarde reconhecido, em finais do século XIX, quando cada vez mais mulheres ocidentais – oriundas, sobretudo, da classe média e baixa – começaram a questionar as desigualdades de género, o sistema capitalista e a divisão sexual do trabalho (Lévi-Strauss, 1977; Engels, 1980; Abbot & Wallace, 1991; González et al., 1992; Ferguson & Hennessy, 2010). A ambição feminina aumentava de dia para dia e as mulheres não só reinvidicavam o controlo dos seus próprios bens e rendimentos como também o acesso ao mundo artistico, intelectual e
educacional. Cunhou-se assim a primeira grande vaga feminista. Neste sentido, e durante este período, ocorreram grandes marcos a nível nacional e internacional. No final deste século a Nova Zelândia tornou-se na primeira nação a conceder o direito ao voto às mulheres e, quase 20 anos depois, em Portugal, Carolina Beatriz Ângelo passou a ser reconhecida como a primeira mulher portuguesa a votar em eleições nacionais, ainda que por mera falha na Constituição.

Flower power ou girl power?

Se para milhões de pessoas a primeira metade do século XX foi aterrorizante, para a ascensão do capitalismo moderno foi uma temporada esperançosa. As grandes mudanças aconteceram durante o período da II Guerra Mundial com a transformação do modelo social e organizacional do trabalho, abrindo espaço para que cada vez mais mulheres conseguissem aceder ao campo académico e ao mercado laboral. No entanto, a ordem política e económica do período pós-guerra voltou a querer ser regulada por crenças tradicionais, atribuindo à mulher a responsabilidade do lar e da família (Brown, 1970; Bourdieu, 1972; Weber, 1978; Flandrin, 1984; Ortner, 1988; Foucault, 1994). Esta ideia causou um grande desagrado no seio do movimento feminista ocidental que, cada vez mais, se sentia exausto da dominação patriarcal. Como tal, a obra literária de Simone Beauvoir, O Segundo Sexo, lançada em 1949, ainda hoje é um grande sucesso. Nos seus dois volumes, a autora expõe, de forma crua, a sua perspetiva acerca das normas sociais construídas ao redor da subordinação e da opressão contra as mulheres. Esta década não só caminhava para o que viria a ser a segunda vaga feminista, como também cunhou a corrente do feminismo francês (Moi, 1987). Nos anos seguintes, as desigualdades laborais e os valores mais conservadores sobre a mulher mantiveram-se, mas o movimento recusava-se a voltar para trás. Com cada vez mais afinco, eram reunidos esforços para que os conceitos de sexo, género e sexualidade fossem integrados no discurso público (Gerhard, 2001). Como tal, em 1960, o Sri Lanka torna-se no primeiro país a ser liderado por uma mulher e, no mesmo ano, as vendas da pilula contracepcional feminina disparam nos E.U.A. e na Europa. Três anos depois, o livro A Mistica Feminina, da ativista norte-americana Betty Friedan, faz igualmente sucesso e, no ano seguinte, o conceito de sexo é finalmente incluido na Lei dos Direitos Civis norte-americanos. Inclusive, o número de candidatas a cargos públicos era cada vez maior e a candidatura de Shirley Chisholm à presidência dos E.U.A., em 1972, reacendeu as expetativas sobre a consagração dos Direitos das Mulheres na Constituição norte-americana. Era observável que os diferentes acontecimentos da contracultura, entre as décadas de 1960 e 1970, multiplicaram-se de forma muito intensa e, apesar de algumas mulheres não concordarem com o movimento feminista, o desenvolvimento de novas correntes não parou. Com a intenção de contribuirem para a consistência do feminismo marxista, as correntes do feminismo radical e cultural mantiveram o seu foco na guerra de classes e nos modos de produção capitalista. No entanto, tiveram também em consideração as diferenças sexuais, biológicas e de género no combate aos sistemas de dominação patriarcal, daí que não estejam de acordo com a indústria do sexo nem com a inclusão de mulheres transgénero no movimento feminista (Firestone, 1976; Echols, 1989; Barry, 1995;Mackay, 2015).

A emergência da interseccionalidade

A partir de 1980 desencadearam-se outras correntes, nomeadamente o feminismo multiracial, o feminismo negro, o feminismo interseccional, o transfeminismo, o feminismo standpoint e o feminismo lésbico. As vozes das mulheres negras, das não-brancas, e das mulheres trans e homossexuais começaram a ecoar, incorporando as suas experiências marginalizadas na luta feminista e trazendo para o centro do debate a abordagem interseccional (Smith, 1974; Hooks, 1981, 1984; Collins, 1986,
1990, 2005; Ross, 1995; Harding, 2004, 2009; Faderman, 2015; Davis, 2016). De forma resumida, o conceito de interseccionalidade explica como funcionam os diferentes sistemas de opressão e como estes se alimentam da intersecção de várias categorias de identidade – tais como o sexo, o género, a orientação sexual, a deficiência, a classe social, a etnia e a cor da pele -, perpetuando assim dinâmicas e práticas discriminatórias (Crenshaw, 1989, 1991).

As correntes do feminismo da atualidade

Por fim, a mais recente vaga feminista, contagiada pela cultura pop da década de 1990 e inicios do século XXI, abriga outros subgéneros do movimento, nomeadamente o feminismo LGBTQ+, o ecofeminismo, o feminismo do terceiro mundo (ou pós-colonial), o feminismo mainstream, o feminismo libertário, o feminismo pós-estrutural e o feminismo pós-moderno. Apesar de existirem algumas diferenças entre si, e em relação às correntes anteriores, todas elas se baseiam no passado feminista (Krolokke & Sorensen, 2005). Inclusivamente, algumas destas correntes já haviam sido semeadas no passado, mas somente com o desenvolvimento da Internet e de outros meios de globalização é que foi
possível desabrocharem. Como tal, o feminismo LGBTQ+, inspirado no transfeminismo e no feminismo lésbico, pretende ser mais inclusivo e enfatiza, de forma geral, os direitos das mulheres trans, o movimento negro, o direito ao controlo do corpo e a desnaturalização do género (Butler, 2003; Wolf, 2015). Na mesma linha de pensamento, encontra-se o feminismo pós-estrutural que tenta combater a estrutura dominante e as relações de poder existentes, através da desconstrução do pensamento
binário (Scott, 1999; Costa, 2000; Weedon, 2000). Já o ecofeminismo defende que a submissão das mulheres está correlacionada com a destruição da natureza, pois as mulheres e o mundo natural são ambos oprimidos pelo nosso modelo civilizacional (Torres, 2009). Como o conceito de interseccionalidade, nascido na década de 1980, assume uma presença transversal a várias correntes, o feminismo pós-moderno e o feminismo do terceiro mundo (ou pós-colonial) elucidam para os diversos fatores socioculturais e biológicos que continuam a subjugar as mulheres não-brancas e não-ocidentais (Tong, 1989; Harding, 2008). Como tal, estas duas últimas correntes defendem a emancipação das nações e criticam o feminismo mainstream que, sendo a corrente dominante de todo o movimento, continua a ser protagonizado pela figura da mulher branca, ocidental e de classe média-alta (Freedman, 2003). No entanto, há quem considere que o feminismo mainstream é assim denominado por apoiar-se
nos ideais dos Direitos Humanos. Certamente que este tópico daria ‘pano para mangas’, pois para tantos outros inteletuais os Direitos Humanos são apenas um conjunto de ideias que teimam em não sair do papel, voltando ao que já foi dito inicialmente sobre o feminismo mainstream: ainda que se apoie nos Direitos Humanos, este tratado está longe de ser palpável em muitos outros pontos do globo que não o Ocidente. Por último, o feminismo libertário, influenciado em certa parte pelo feminismo anarquista e liberal, abraça os direitos pessoais e individuais de cada mulher com base nos ideais individualistas e de mercado livre (McElroy, 2002).

O movimento continua 

Em pleno século XXI, milhões de mulheres continuam a ser marginalizadas e violentadas, inclusivamente em Estados que se apresentam como democráticos e livres. Desde o casamento forçado à falta de recursos básicos – como o direito à saúde, educação, habitação ou alimentação – , são
mais os países que continuam a permitir a dominação patriarcal e a opressão contra as mulheres do que aqueles que estabelecem direitos igualitários entre géneros. Por isso, na definição do movimento feminista – uma atividade um tanto complexa – é necessário que se fale no plural quando queremos defender a mudança. É necessário que o movimento se alie a outras ações coletivas para que possa promover, de forma saudável, as histórias e as experiências das mulheres de todo o mundo em todos os campos da esfera pública.

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